
Existem emoções que levamos anos pra digerir. E não são apenas as negativas, mas também aquelas que de tão positivas nos deixam sem palavras...
A primeira viagem à Europa em 2008 foi um destes momentos
speechless da minha vida. Ao retornar fiquei ali imersa em fotos e narrativas que eu preferi fazer pessoalmente aos amigos mais chegados.
Fotos dizem muito, mas não dizem tudo. E mesmo havendo informação abundante na web sobre o Velho Mundo, cada viajante traz consigo um novo olhar e novas experiências sobre rotas que nem sempre são o hit, sobre pessoas que não são famosas, mas acabam fazendo parte de sua história e marcando-a para sempre.
Digestão iniciada, começo falando da Bélgica, uma nação que já foi a mais rica da Europa, e que chama a atenção não só pela fartura que ainda persiste, mas por comportar em si mesma
culturas tão distintas.
Rodar de carro por 1 semana na Bélgica significa viajar por microcosmos tão singulares que mal dá pra acreditar que estamos no mesmo país. Namur, Dinant, Gaasberg, Brugge, Mons, Waterloo, Bruxelles... cada cidade ou região nos coloca diante de no mínimo 2 idiomas, alguns dialetos e muitos hábitos, perfis, diferentes especialidades.
Ligando as cidades, rodovias amplas e perfeitas, com pedágios que você paga usando o cartão de crédito, num instante. Estacionamentos e lava-rápidos também funcionam no estilo
do it yourself, bastando uma moedinha na máquina para tudo começar.
Os banheiros, como em outras partes da Europa, são todos pagos. Impecáveis e com direito a uma senhorinha fazendo a checagem pós-uso, com ares de inspetora (confesso que essa parte me assustou um pouco! rs)
Por todos os lados da estrada, jardins e árvores cuidados com uma simetria inacreditável. Nas ruas belgas, o lixo se resume a folhas secas puxadas pelo vento. E os únicos "pobres" de que se tem notícia são imigrantes muito bem vestidos em algum posto de atendimento da imigração.
As lanchonetes são chamadas de "snacks". Os lanches são gigantescos, a exemplo do tradicional
mitraillette ou metralhadora, uma enorme baguete recheada com carnes, molhos, salada e, não poderia faltar,
patatas fritas! Assim diriam em um dialeto da região Wallon.
Em geral os pratos belgas são exageradamente imensos. E se você pensa que dividir um prato destes com amigos é tarefa fácil ou comum, se enganou. Os mega pratos não foram feitos pra compartilhar e alguns belgas se ofendem quando pedimos para rachar com alguém.
Pude comprovar isso no festival de frutos do mar de Bruxelas, quando um garçom torceu o nariz ao saber que eu não daria conta de comer sozinha uma panela de mariscos (moules) no almoço. Eu disse PANELA (vide foto). E mesmo dividindo a panelada com meu anfitrião Deny, ficamos sem fome para a janta, sobrando espaço apenas para um chá digestivo na casa de amigos.
Mas não é só dessas guloseimas e das melhores cervejas que vive Belgique. Na terra do matton (cheesecake) e do durum (enroladinho salgado) existem ainda vitrines com prostitutas de luxo em beira de estrada, que também podem ser vistas na vizinha Holanda, sobre a qual falaremos algum dia. Seminuas ou usando finíssimos langeries, mais parecem manequins a enfeitar a fachada de uma loja surreal.
Se alguém na Bélgica te convida para ir a um café, querem dizer bar. Cafeteria é outra coisa que também não tem muito a ver com as nossas. Os nightshops, onde você pode encontrar de tudo um pouco, de cerveja em lata a pilha pra câmera fotográfica, funcionam das 18h às 3h da manhã. O resto do comércio, das 9h às 17h, sendo que das 12 às 14h eles dão uma fechadinha para almoçar... Apenas os caixas bancários são 24h e as danceterias funcionam das 22h às 4h da manhã.
Cidades como Brugge parecem saídas de um conto de fadas, famosa por suas rendinhas (dentelle) e recantos adoráveis. Para cada cerveja, um tipo de copo, de queijo, de pão. A gastronomia belga é comemorada em concursos entre regiões e tratada com realeza, fazendo jus à monarquia que ainda sobrevive e governa por lá...
Velha e moderna, aconchegante e fria, essa é a Bélgica de waffles servidos na rua, de pubs que recebem estrangeiros com a música de seu país, de um governo que ampara estudantes e desempregados como eu nunca vi. E para meu total desespero (de não estar lá agora) é a terra do melhor chocolate do mundo (Guylian est mon préféré), ao lado do suiço, que também não deixa barato.
Seguramente eu não moraria lá, como fez o meu amigo belgo-brasileiro que não quer saber de voltar desde 2000, mas... uma passada na caleidoscópica Bélgica il est essentiel!
